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agosto 10, 2005
Genival, o Detetive Metrosexual
Eu estava perdido um mar revolto de dor e vertigem. Com um esforço que me pareceu sobre-humano consegui abrir os olhos só para ser ofuscado por uma luz forte apontada diretamente para meu rosto.
- Então, Genival... Você achou que ia mexer com o papai aqui e se sair bem?
Era Janjão, meu arqui-inimigo. Estava parado na minha frente com aquela sua barriga detestável quase rasgando o macacão de mecânico coberto de graxa e imundícies. Olhei a minha volta e me descobri em uma oficina mecânica com paredes cheias de encartes centrais da Sexy e calendários do Mengão. Testei meus braços e pernas. Eu estava amarrado por correias de bicicleta. Correias de bicicleta imundas que estavam destruindo meu Armani.
- Janjão, seu malfeitor miserável, me liberte agora e juro que não vou fazer você comer esses mocassins péssimos que você está usando.
- Na verdade eu tenho outros planos Genny... Que tal você me contar tudo que sabe sobre o caso do pince-nez doirado.
- Eu não sei nada sobre isso e vou contar até três. Se você não me soltar prometo... Ei essa sua camisa tem listras horizontais? Seu estúpido idiota cretino, isso te deixa ainda mais gordo, até um nécio grosseirão deveria ter noções básicas de EI! O que você está fazendo?
Janjão pegou meus óculos Gucci e lentamente esfregou suas digitais cheias de sujeira nas lentes, só para depois atirar o acessório junto com alguns pneus dentro de uma banheira cheia de água cinza. Ele tirou uma gilete de atrás da orelha sebenta.
- Ah, você vai falar sim...
Em um movimento rápido ele segurou minha cabeça e passou a gilete em meu rosto. Eu me debati inutilmente e esperei, mas não senti nada. Janjão levantou um espelho na altura dos meus olhos.
- Te cortar seria muito sem classe até para mim... eu sou um pouco mais... sofisticado.
Olhei para o espelho. Minha sobrancelha direita estava dividida no meio. Eu tinha tipo, três sombrancelhas agora. Meu sangue subiu a cabeça e eu emiti um grunhido gutural que ecoou por todo o lugar.
- VOCÊ VAI MORRER POR ISSO JANJÃO, MORRER!
O desgraçado ria alto enquanto cortava minha gravata com um estilete, bagunçava meu penteado, me borrifava com Leite de Rosas e me forçava a comer uma vasilha de amendoins, coisa que destruía minha cútis. Ele pegou a gilete novamente e se aproximou do meu rosto. Com um movimento cruel eu passei de três sobrancelhas pra nenhuma. Então ele parou de rir.
Janjão olhava pra mim de maneira curiosa eu controlei minha fúria e tentei perceber o que estava acontecendo. Senti uma coisa quente no meu rosto. Sangue. Ele havia errado o corte e agora eu estava sangrando. O que realmente não me importava muito, depois de toda a desgraça que ele já havia feito comigo. Senti o sangue escorrendo por meu nariz. Uma gota se formou em sua ponta. Janjão se levantou assustado e deu um passo pra trás. De repente eu percebi o que ia acontecer.
A gota aumentou e caiu em câmera lenta. Caiu por horas, até atingir O CENTRO DA MINHA CAMISA FAUSE HATEN BRANCA E IMACULADA QUE EU HAVIA COMPRADO POR UM PREÇO EXORBITANTE A MENOS DE UMA SEMANA.
Eu não lembro de muita coisa a partir daí. Lembro da névoa vermelha. De partir as correntes com minhas mãos. Alguns fragmentos de Janjão implorando e gritando enquanto eu o surrava até virar uma polpa sangrenta. Não foi minha culpa, não era eu ali... Era algo maior, pior, algo que eu sempre mantive preso nas profundezas mais recônditas do meu ser.
Quanto voltei a mim e vi o que tinha feito me senti enjoado. Apoiando-me nas paredes saí daquele lugar e depois me limpei usando um lenço com meu monograma. Mas era tarde demais.
Meu terno estava arruinado.
Esse episódio de Genival é dedicado ao meu camarada Rafael Arraes, ele sabe porque.
Posted by Tiago Teixeira at agosto 10, 2005 03:33 PM
Comments
TT, meu gato pirado, vc anda se superando e pelo visto o Arraes também!
Posted by: AnaQ at agosto 11, 2005 12:41 PM